Skate, moto e muita diversão.
Esta foi a Tour de motos que organizei com os camaradas. A matéria saiu tão massa que ganhamos 17 paginas mais a capa da edição 152 da Revista Tribo Skate.
Foram vários momentos de alegrias, zicas e muito skate filmados por Tomas Losada.
Quem quiser ver esta matéria e outras, vai correndo na banca e pegue a sua Tribo.
Aqui vão algumas fotos que não saíram na revista.
Este post é bem longo, mas tenha paciencia que vai valer ler e ver tudo…
O que acontece quando um grupo de skatistas que andam de moto resolvem unir o agradável ao agradável? O primeiro milagre foi o da multiplicação das rodas: entre pneus e uretanos, foram 68, girando serra abaixo, uma vez em direção ao Sul, outra para o Norte, mas sempre rumo ao litoral. Nem sempre o grupo foi bem vindo e uma das despedidas mereceu até escolta policial. O resultado, porém, valeu a pena.
Primeira viagem
Em agosto do ano passado, encontrei o Arame e a gang dele num campeonato de skate e todos tinham moto. Ficamos falando tanto do assunto, que surgiu a idéia de fazer uma turnê de moto pra qualquer lugar, tipo easy rider, só que dando ênfase pro skate. Na hora, a galera já topou e combinamos que ia ser na semana seguinte.
Nesta primeira viagem, nossa única parada certa era a casa do Daniel, na Praia Grande.
Quando a gente estava descendo, paramos no pico onde foi a foto do Arame. Nisso, veio o carro da Ecovias e perguntou o que a gente tava fazendo. Quando a gente falou que estava andando de skate, eles disseram pra gente terminar o que estava fazendo, por que eles tinham interditado o trânsito, por causa de um acidente. A rodovia ficou toda pra nós.
Chegamos numa quinta-feira na casa do Daniel, deixamos as coisas e, dali, a gente saía pra andar. Andamos na Praia Grande, depois fomos pra Itanhaem e Mongaguá, de onde saímos expulsos. Tudo porque a gente tava andando de skate, tentando tirar uma foto na frente da Telefonica. Os funcionários disseram o horário em que iram embora, a gente esperou mas, quando fomos fazer a foto, a polícia chegou esculachando falando todos os palavrões possíveis e ainda ficou de olho no meu equipamento fotográfico e acompanhou a gente até quase sair da cidade. Foi a última parada, no sábado. Estes três dias renderam muito, o resultado ficou animal, mas ainda tinha que reunir mais material.
Oito meses depois…
Reunimos a galera de novo e, desta vez, o Xaparral e o Lousada vieram junto, o que agregou bastante. O Xaparral já tem um envolvimento com moto há muito tempo, foi um cara bem solidário na estrada, ele sabe levar legal. O Lousada foi filmar. Então, a princípio, eram os dois, Arame e New, eu e Daniel Marques, Dario e Boca Murcha.
As histórias desta segunda viagem começaram na véspera. O Arame fez um monte de preparativos, arrumou a DT inteirinha, reformou mas, na hora que ele tava indo pra casa um dia antes, a polícia parou, por que ele estava sem o retrovisor, tentou fugir [rs], o policial não gostou da idéia e prendeu a moto. Daí ele foi com a noventinha cilindradas, uma Hunter. Comigo, também, fiz uma revisão completa na moto, tava tudo certinho, mas ela quebrou na rua de casa, quando eu estava saindo, já com a mochila, para encontrar todo mundo. Tudo por causa de um fiozinho da vela, coisa de desgaste. O pessoal da oficina foi lá, me resgatou, fiz a viagem inteirinha e, na volta, ela quebrou de novo na rua de casa, quase no mesmo lugar mas, desta vez, larguei a moto na oficina.
Quando você viaja ponto a ponto, não tem essa graça, esses acontecimentos. Se eu estivesse de carro ou de avião, não ia perceber toda essa dinâmica que a moto proporciona. Ela quebra, fura pneu, a própria viagem é a diversão e, com skate ainda por cima, é tudo o que a gente gosta na vida. Brincar com o inusitado, sair das encrencas, das dificuldades e chegar em casa tranqüilo.
De volta à estrada
Desta vez, começamos a viagem por São José dos Campos. A galera ia ficar em hotel, com os patrocinadores bancando, tudo certinho. Só que alguns amigos estavam sem grana, então a gente juntou o dinheiro dos patrocinadores e falou para eles virem de qualquer jeito, para participar com a gente. A galera toda acabou ficando na casa dos meus pais colocando colchões por onde dava, que é pequenininha, mas coube todo mundo; umas 10 pessoas. Ficou o maior clima de família, todo mundo junto, muito mais legal que ficar cada um no seu quarto de hotel. A gente pôde confraternizar mais.
Em São José rolou muito skate, tem muito pico pra andar. Lá no Bairro São Vicente, tem um corrimão verde muito grande. Não está nas fotos, por que ninguém voltou manobra lá, mas foi um momento muito legal, em que a galera emparelhou as motos e, como não tinha gerador de luz, a gente iluminou com os faróis das motos o pico à noite. Foi juntando muita gente e, a cada tentativa dos skatistas, a galera começava a “estourar” o motor, tipo moto boy na Av 23 de maio em SP. Foi muito legal e durou até a polícia chegar.
O rato e a blitz
No dia seguinte, a moto do Xaparral não ligava mais e a gente estava pronto pra descer pro litoral, com o Leonardo Du e o Chapolin, que também têm moto e resolveram seguir com a gente. Levamos na oficina, o cara simplesmente enfiou uma chave de fenda no escapamento e explodiu… Tinha um ratinho lá dentro, mas não era um ratinho; era a fibra que fica dentro do escapamento. Parecia um rato queimado e a gente falou pra galera que estava em casa, esperando, que um ratinho entrou no escapamento e até agora ainda estão acreditando. Bom, até agora.
Resolvemos mais este b.o. e fomos pra Anchieta. No primeiro posto policial, o Xaparral passou direto, mas o policial mandou o Arame encostar a moto. Por solidariedade, todos paramos junto e foi começando a listinha de multas. O Arame tomou quatro: farol desligado, pneu careca, placa levantada e retrovisor basculante. O Mailton tomou por capacete e viseira irregulares, placa levantada e retrovisor basculante. E eu, achando que era o bonzão, tinha dado uma geral na moto, parei por que não tinha nada, a moto tava toda arrumadinha, eu me preocupei tanto com isso… Tomei de capacete irregular e placa ilegível. Saímos de lá com nove multas! O Arame teve que voltar, trocar o pneu, arrumar o retrovisor e a placa. Eu tive que pintar a placa e trocar meu capacete. É legal, por que faz a galera se agilizar e aprender. Pros moleques, foi muito bom. Se não fosse assim, eles nunca iam se coçar pra arrumar a moto; só sentindo no bolso.
Farpado
Este espírito solidário tem que existir, até por que as motos são de diferentes cilindradas.
O Arame tava com uma 90 cilindradas, o Xaparral com uma 225 e eu, com uma 400. Na estrada, tem muita diferença, então a gente tinha que ir no ritmo do Arame, que é um papa-moto. Todo campeonato amador que dá moto, ele quer ganhar e ele já tem duas! Só que o ritmo dele é alucinado, por que é uma criança andando de moto. O tempo todo ele vinha atrás da gente, acelerando… A moto dele não andava, mas ele vinha estalando o motor e fazendo “bololooooo”, dando tapa no capacete da galera… Ele tem muita prática, tem moto desde criança, senão seria muito perigoso. A galera tem experiência e os moleques têm muita habilidade. Os caras têm oito, dez anos de moto, tranqüilo. Eu sou mais durão, ficava mais cabreiro com a segurança, não deixava a galera extrapolar tanto, tipo tiozao. Fora isto, dez pessoas para uma turnê de skate é muita coisa e, na estrada, pior ainda. É muito difícil coordenar todo mundo.
Destaque da Beija-flor
O Xaparral falou pra gente juntar o dinheiro pra dar para todo mundo ir. Fomos para São Sebastião e Ilhabela. Depois, fomos para a pousada da avó dele, dona Dirce, em Caraguatatuba. Nos fundos, passa um riozinho que dá na praia, piscina, pier… Ficamos dois dias, tranqüilos, a maior maravilha. Quando a gente foi pagar as diárias, a avó falou “não posso aceitar seu dinheiro, por que é aniversário do Xaparral hoje e esse é o meu presente pra ele”. Foi muito legal a energia dela falando isso e a gente voltou pra São Paulo se sentindo muito bem.
Foi uma experiência muito boa, com uma galera muito seleta do skate, pessoas que têm muito valor pessoal. São amigos de verdade, foi muito bom trabalhar com eles. Foi fácil. O tempo todo de bom humor, um ajudando o outro, quando um estava cansado o outro colocava pilha, por que teve dia que a gente ficou andando até duas, três horas da manhã, direto. O dia inteiro andando de skate e de moto; tudo fluiu.
Antecedentes
Um pouco depois da Segunda Guerra, os soldados veteranos voltaram pra casa e não se adaptaram à cultura, ao dia a dia da família e, com aquela adrena e com o dinheiro do governo, começaram a comprar as motos sucateadas do exército. Daí, foram surgindo os grupos de viagem, os motoclubes e, como a galera saía bastante pra beber e ficar zoando, ficou essa imagem.
Mas fora os problemas com a polícia, a gente foi muito bem tratado. A princípio, as cidades não recebiam nosso grupo muito bem, também porque a gente chegava fazendo barulho. De cara, rolava uma má impressão mas, depois, as pessoas viam que o clima estava tão legal, a galera dando risada, contando piada, um bagunçando com outro… Dez minutos depois, já vinham querer ficar com a gente. Nos restaurantes, o pessoal vinha perguntar se a gente era alguma banda de rock, ou motoclube, a gente explicava que tinha ido andar de skate, o pessoal ficava mais interessado. Tem muito mais preconceito com moto. Na hora que a galera vê que a gente está andando de skate já dá uma amenizada. Quem diria…
Sorria!!!

























